entredoisouMAISespaçosbrancos
:
Juliana de Almeida Valverde
LIVRO
Poemas do livro entre dois ou mais espaços brancos estão disponíveis em texto nesta seção: a trajetória da afasia ao avarandado e os tantos mínimos entre um e outro espaço à espera de infinitos alheios.
afasia
respingado de lembranças
como esquecer um grande amor
letreiros de cegar facas
desespelho da cara
avarandado
afasia
afasia

hoje acordei cavalo-marinho calmo em alto mar
de lençóis meticulosamente bordados por vovó
o quadril flutuante o silêncio das pernas os pés numa cauda só à revelia das águas de algodão
impossível sentir qualquer textura
meu corpo quieto e a cabeça enxuta no emaranhado das linhas de minhas palmas negreiras
o que é de iemanjá assabá oyá o é
impossível respirar passivo o vice-versa do efeito-camomila
impresso pela memória alinhavada de meus antepassados
hoje acordei cavalo-marinho e não pude tirar proveito de boiar em paz
um dos fios dos lençóis espanou
em efeito-de-cadarço-velho-que-já-não-entra-em-buraco-de-calçado-algum
de nada adiantou o metamorfoseado dos tatames murakami
mera vontade de que o ofício-fiadeira não fosse mesmo herança de família

ir para:     
prateleiras que acordam turvas

o quarto era o mesmo
o mesmo quarto
e a mesma vista
o mesmo fardo
e aquele canto íntimo
e o desconhecido
e a certeza de amanhã

o quarto era o mesmo
o quarto sempre fora
o mesmo

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foco

abrir o olho
abrir bem
[boca cômoda lábios colados
cabeça inquieta
um inquieto que não para]
olho é olho
boca é boca
[espelho sujo
confraria burra de olho cabeça e boca]
cabeça é cabeça
palavra dentro que não cessa
[lente imunda
mente incansável]
abrir o olho
abrir
abrir bem

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mordaça

em questão de palavras
poucas se perderam
o mundo
emudeceu-se no disse me disse do silêncio de dentro

caco de fala

amor
a palavra dói
dentro
a palavra
dói
foge à boca
o nome
a bancada
o teto
a água
a grama
a grama
a grama
não
nada amor
dentro e dura
é só
a palavra dentro
a palavra
dói

boca chiusa

da ausência de tinta
tingido avesso
escorrem palavras de farrapos
dos mais fubentos pendurados no varal

– não consigo falar

estendidas fincam-se secas
a chamar o vento
o vento o vento
bramido rouco
cordas mudas
não me espere amor

– não consigo falar

o meu canto quieto
esta boca chiusa
algum bafo de quintal
e a cabeça
nômade

vá embora amor
já não me visto há horas

recaída

queria fechar o olho esquerdo e completar esta falta
abrir os vãos e esbaldar-me
mas em silêncio
mutilas
ferida d´alma ao que de mim poeta
vivo quiçá na vontade
minha cabeça avoada
palavra
e a boca aqui jaz

tenho dois vivos olhos
e nada

respingado de lembranças
respingado de lembranças
Pós-traumático

Foi Cirino
foi
foi porque era o que fosse
Queria dizer
Cirino
e redizer
Cirino
e maldizer
Cirino
mandar na mandíbula
Cirino
e na língua
Cirino
lamber da mais limpa prolação
Ci-ri-no

Foi Cirino
foi
foi porque nunca me foste
Duas semanas e nada
Já não aguentava a candura da boca

Rebarba

O mundo fora-me boca
e desembestada
até este cavo d'alma
a palavra alma escapou
já não podia falar

O que se é de si a não ser voz

Por um infinito
na ausência
existi
em questão de silêncios
nada

Tanto neste corte de pano
Eu num instante

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Emboscada

No imo do olho um nada de gente
carcaça oca
o sopro do murcho e do anafado
sendeiro de gente
daquela miúda
que é um nada de gente
e só

No imo do nada
quantas veredas
caminhos d´um só zé-ninguém
rios de palavras

Nonada tem é coisa muita
e gente muita
e nada mais

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Ala

Estive nestes pedaços
fio de noite que não parte
um bololô danado
linhas retalhos
e nenhumamente
Entre mil e tantos eus
o desconhecido
Ao acordar mais ninguém
aquele tempo de cadeira embalando
rangido que corta
e corta

*

Das histórias de palmas Ciatas
de cada um dos odus iorubás
nasceram as teias de sonhos
daqueles sonhos tupis
e [não]
isso nunca fora novidade

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Anistia

Meus tempos idos
de cantos e batuques avoengos
Perdoá-los era perdê-los
e perdê-los esquecer-se
A cada dor que ressoo
antes desta que tomei minha
uma vida uma palavra
histórias linhas de família
Qualquer fiapo
uma parte legítima
e memória
nosso único
decreto

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Cortinado

De nada adianta a cortina
Pano acessório estúpido
cortado a calar coisas d´alma
A brecha a fresta o buraco
Salve e salvem-se os ventos
Iansã que desnuda as estupidezes

*

Ritinha despindo-se calma
A vida em seu curso de janela simples
Sem veda
sem trégua
sem disfarçar-se
Ah estúpida cortina

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Como empalhar assentos novos

A velha cadeira de balanço
O vazio espesso que a velha deixou
No buraco imundo
A cabeça imunda
Tinha medo
da espécime velha
palha enervada
esgarçada
pote asséptico de conservação

A velha cadeira de balanço
da velha

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Respingo de madeira

Arca de imbuia
canto de se guardar linhas
Aquela carranca
olhos de minha vida
Se tempo objeto ou lembrança
o mesmo bordado
cabeça inventiva
três novas agulhas
e esta teia a parir histórias
uma a uma para o fundo
da arca
de imbuia
pé de tantos balanços

como esquecer um grande amor
como esquecer um grande amor

I

Benevolência

Bunda gorda.
Jovelina enxuta de tanto espreitar.
Vinte dias e nada.
Nem peixe.
Nem jangada.
Nem Darcino.

Nem o moço viçoso da vendinha de seu Juvenal.

Vinte e tantos dias
e nada.

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II

Complacência

Gavetas impecáveis.
Bentinho e coisa alguma.
Eu você
nem arrumadeira.
Um solteiro convicto.
As gavetas
impecáveis.

III

Comunhão

O casal de periquitinhos.
Soltos.
Asas cortadas.
Juntos
no passo coxo de jardim.
Esperavam-se.

Qualquer gaiola seriam asas.

IV

Decência

O circo partiu.
Brados de pejo janela a janela.
Coisa de vizinhança.
Louca de rua.
Menina-moça de cidadezinha.
Menina-moça.
Mocinha.
Ninguém se despediu.
Uma desonra.

O circo caiu no esquecimento.

O palhaço
ficou.

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V

Dedicação

Os telhados falam inertes.
Como é desmazelada.
A viúva de seu Miguel.
Morreu faz anos.
Coitado.
Nenhuma telha.
Nenhuma.

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VI

Desapego

Embrulhado de lençol alvíssimo
de mais de duzentos e tantos fios.
Dona Lira
moribunda.
Fez questão de levar o corpo à porta.
Frederico nos mais finos trapos.
Foi sem sequer olhar
para trás.

VII

Disposição

Joel e Madalena.
Sumidos no amor de moita.
A parar o tempo.
Neste instante.

Nenhum ponteiro é de compartilhar ponto que lhe seja alheio.

Joel e Madalena.
Cada qual com seu
talante.

VIII

Libertação

Gustavo na areia amuado.
Olho vidrado na zoada das águas.
Queria ouvir o barulho do mar.
Das ondas.
Vicente inquiria seu gordinho de longe.
Deveria desejar o silêncio.
Não sentia a equidade das coisas.
Muito barulho.
Pobre Vicente.
Pobre Gustavo.
Pobres.
Pobres.

IX

Piedade

Marionalvo em seu leito de morte.
Matou-se em mais uma chance de calar-se.
Tenho outra família Elvira.
Marionalvo não morreu.
Mulher é bicho ruim.
Alimentou o pobre no quarto dos fundos
esperando a morte de seus mais novos chegados
pensamentos.

X

Reconhecimento

Alô.
Alô.
Quanto tempo.
Tempo.
É míope ou astigmático.
Míope.
Não tinha dúvida.
Hãn.
Nosso Pedro.
Hãn.
Já tem 15 anos.
Hãn.
Adeus.

XI

Resignação

Braço colado ao tronco.
É-vem Carlos todo pronto.
Levou foi rasteira bem dada Carlos.
Dolores caída de tanto sorrir.

Uma pedra aquele embrulho de companhia.

Já fazia era ano.

XII

Sinceridade

– Amor não existe amor na Ilha de Maré.

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XIII

União

Vida em litígio.
Mariana de cabelo novo a cada corte.
Fausto emudecendo.
Decidiram pelo apartamento.
De logradouro.
Trinta e sete malas
cinco filhos
e a vantagem de tintas e tesouras estrangeiras.
As melhores.
Do mundo.

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letreiros de cegar facas
letreiros de cegar facas
Caligrafia de palavra catada

1.
A palavra que é de lápis
habita toda seus cantos cerrados,
onde nasce e finda sem incitar dúvidas.
A de papel é de outra natureza:
vive boiando na própria infinitude
até sumir de tanto existir.

O limiar entre o rabisco cheio de si
e a folha em branco transbordando
é o mesmo emaranhado de azuis
do horizonte.

2.
Ora não houvesse o tempo das borrachas,
ninguém saberia dos hiatos das traças e dos cupins,
e o espaço de pairar na matéria vazia seria
o vazio.
Como se faz preciso sabê-las fluviais
as palavras de papel...

3.
De certo é que o engarrafado por muito vence,
e o mundo versa-se mudo por demais,
na prontidão dura de ser só e sequer
mundo.

Certo não aos instantes,
quase nunca silêncios,
quase a toda suspensos
entre o risco de boiar e afundar-se
de tanta e tanta
falta de.

Estilhaços

Abraço,
estás no desabraço,
em nosso olho com olho,
em teu depois de.
Uma lágrima molhou-lhe a minha falta.
Meu olho seco sem titubear:
há tempos já me havia partido...

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Precaução inquisitória

Toda hipótese é a confirmação de uma falta:
a nossa.

Profundamente um só eu

Pensar o outro:
enganar-se.
Sentir, por muito saber.
Qualquer pessoa saberia.
E quem nunca foi ninguém mais?
Nunca.

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Fotografia

Desencontrar-se neste inerte duvidoso
é antes estar cheio
de si.
Para todos os sentidos de expressões ínsitas,
uma só moldura,
prisão de significados.

Se eu nunca fui alguém...

Sobre tempos perfeitos

Ter razão é estar só e aniquilar
infinidades.

Sardinhas, papagaios e coisas de vó

Daqui um disse me disse
que não se diz
nada.
Coisa de lata.
Todo mundo carregando o mesmo livro grosso
de sempre.

Pode ter cara de,
jeito de,
mas não é
sardinha.

Uma pena.
Seriam tantas latas.
Com óleo e sal,
sal e água.
Boa água salgada para a fome de tanta gente.

Poderia mesmo ser
sardinha,
mas é só aquele blábláblá
dos que não sonham pairar no horizonte.

*

Outro dia alguém se desdobrou
ante à espuma das águas.
Das nuvens.

Pai, onde começa o céu e termina o mar?
Pai?
Hein, pai?

Papagaios são mesmo surdos.
Pena não mudos ao invés de.
Às penas, vivem muito
e deixam de
se verter em cores próprias.

Hein, pai?
Hein?

Esforçam-se.
Espremem-se.
Não se sabem.

Veja.
Olho de papagaio é esbugalhado
para fora.
Difícil de se ver dele.
Olhe.
Pode olhar.

Vovó dizia que o mar começa no começo
do infinito
e que é lá que o céu descansa...
É isso, não é, pai?
Hein, pai?
.

Fidelidade partidária

Assim que poesia vira coisa de quem sonha,
o mundo é mesmo dos espertos.
[E quando não há vaga para malandro:
é bom explicar].

Coxia

Vontade é coisa viva de dentro.
Nos bastidores
canto de entranhas
o ar arranhado goela abaixo.
E um sinal
e mais um.
O corpo inchado, inchando...
Máscara e cara mudas na falta,
naquele bem-bom do breu da tardança.
Ninguém se ouvindo na morte dos toques.
E outro
e o derradeiro:

É o inútil do vital, senhoras.
O inconfessável em lápide,
em pedra, senhores.

Cortina fechada.
Olhos esbugalhados de tanto se olhar.
E lá se vão juntos
o mundo ladeira abaixo
à margem desta ribanceira
que nunca lhes fora
um desconhecido.

Aplausos.

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Notas de um discípulo

1.
No dia em que o espelho é senhor de todos os encontros
o mundo foi uma grande mentira.

2.
Só o olho redime a própria gente da própria invenção
vida.

3.
A verdade escorre da vista quando a boca sabe tudo o que diz
e a cabeça mais ainda.

4.
Calar é tentar aproximar-se de si.

5.
O silêncio está mais perto da gente quando a gente
desiste.

6.
Cada dia é a última aposta depois da renúncia do sono.

7.
Ninguém vive só com tantos desconhecidos.
Basta sonhar.

8.
Para sentir o que lhe é peculiar
sair dele.

9.
Amanhã é o tempo que move os dias.

10.
Memória são forças de uma existência ancestral que legitima o vivo.

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Simbiose

A cabeça só inventa sentidos enquanto o pé anda.
Quando para
para.

O absoluto circular

Destino
coisa de tempo que volta.
Se amanhã pode não haver mais mundo
tudo que fora pensamento e palavra
é o que nunca passou de
invenção.

desespelho da cara
desespelho da cara
Retalho em cassa Entre a máscara da cara e a quentura do respiro não se tem lá muita coisa Só o que para mim de mim é meu mesmo O aprisionado da palavra na cabeça que não se deve livrar A minha língua a minha boca a minha cara da máscara ninguém vê Nem deve mesmo existir-se debaixo de tão bela alheia carapaça Entre a máscara da cara e a quentura do respiro só mesmo a vontade de um espelho retroverso a transparecer o que para mim de mim é meu mesmo Entre minha máscara e minha cara só mesmo o espaço oco do entre
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Boneca russa

Dentro de mim um oco todo
engolindo os tantos outros tão cheios de si
multiplicados em réplicas
da matriz abarrotada
aquela menor pedrinha toda densa inchada
dos infinitos vãos que se encapsulam em meu ventre
Dentro do bojo um hiato entre outros
Dentro do último quiçá uma víscera
Há certa fé das entranhas nos entre-espaços de mim

Oco ou abarrotado

Tanta palavra
e nenhuma
quanta vontade
e nenhuma
quietude
desejo que move os encontros
destes mundos de dentro

talvez um poema

vivo rouco de tanto
tentar

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Livre das acepções

Quem sabe ser tácida
eleger-se exclusivo ao som do ouvido
na ausência das conjugações
dos sentidos
da pessoa
a escolha do não significado
Quem sabe alguma vez
tácida
apenas
profundamente

Autorretrato

Na vida turva da lagoa escura
não se vê cara
nem coisa que o diga
sequer vontade há de ali se ter
pois se a lagoa preta é negra
é negra
qualquer quimera de
calar-se ver-se
ouvir-se ser-se
desilusão
se a areia branca
aquilo que arrodeia
quem é o breu
um infinito
o estalo
este remanso
ideia de refrate
Na vista turva da lagoa escura
quem

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Caleidoscópio

A memória que me é verdade
face ao avesso do que fui de fato
aos olhos da avenida sete
reluz cacos só meus
vermelhos-vivos de batom barato
desmentindo os dentes
que sangram à sobra
de boca
bocão
já não sei rimar

Meu nariz retorce
meus olhos estalam
minha cabeça volta
o tempo não
as cores não

Há um consolo para além das bordas
As vidas nunca estiveram do lado
de fora

Desde ontem o poema

Teço os dias com esta querença
e não se tem som afim
de contá-lo enfim
contê-lo
Meu poema está pronto
no tempo desta gente que teima
ao impossível ao indizível ao corrosível
O que será de quem
não se pode empedrar
Desde ontem digo mar quando não mais me há
o que dizer
o que impedir
o que rasgar
Esperei a vida a fazer um poema
não me houve
Cantei Caymmi
Tomei-o como todo
O mar é o mundo
O mundo é mar
Desde ontem digo
mar mar mar
Quando não mais me há
o que dizer
o que impedir
o que rasgar
Desde ontem digo
mar

avarandado
avarandado
eco matuta

da terra
terra
na terra
flor
chão rachado
seco
esticado
cabeça oca
oca
uma flor
arranca tudo
pétala
caule
folha
flor
chão rachado
seco
esticado
cabeça oca
oca
oca
nada de novo
de novo
flor

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o velho e o rio

o velho à margem
a água passando
sentinelas
de seus tempos fazendeiros
um e outro
do outro
espelho
o rio calando
mundos
a mente inventando
vidas
o rio ali
o velho velho
o velho
cheio
cheio de
si

a cabeça e o banco

cabeça
palavras
banco
pernas
o mesmo desejo
duas inerências
o banco quando a estação fecha
sente-se
a cabeça quando o sujeito dorme
sonha

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vigia

paisagem
de fora
para quem
de dentro
para quem
de fora
trapeira
vista cerrada
olho caseiro
janelas-me

cadeira
de balanço

no balanço da cadeira
atento
de prontidão à captura
de um instante
entre a ida e a vinda
estreita
de sua própria marola
inquieta
tentando em si
caber-se
e tentar fora sempre
nada
horas a fio e
nada

a boca querendo
sumir-se
o ar a soprar a
falta
à espera do vazio
estanque
o lugar da existência
pura
a fleuma do tempo
limite
entre prender o ar e
sufocar-se
o silêncio mudo e
nada
nada e de novo
nada
no balanço da cadeira
o nada

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POEMA EM CANÇÃO
Alguns poemas de entre dois ou mais espaços brancos podem ser ouvidos em forma de canção nesta seção. Cada poema, delicadamente musicado por um artista convidado e interpretado ao menos por um dos compositores da canção, está aqui acessível, em um espaço aos múltiplos sentidos.
afasia
afasia
hoje acordei cavalo-marinho
poema musicado por Mário Carvalho
arranjo: Mário Carvalho
interpretação: Juliana Valverde (voz) e Mário Carvalho (piano e coro)
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respingado de lembranças
respingado de lembranças
Rebarba
poema musicado por Ricardo Valverde
arranjo: Yuri Prado
interpretação: Juliana Valverde (voz), Ricardo Valverde (vibrafone) e Yuri Prado (violão)
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Emboscada
poema musicado por Péri
arranjo: Péri
interpretação: Péri (voz e violão)
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como esquecer um grande amor
como esquecer um grande amor
Dedicação
poema musicado por Guilherme Valverde (Bareta)
arranjo: Yuri Prado
interpretação: Juliana Valverde (voz) e Yuri Prado (guitarra)
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letreiros de cegar facas
letreiros de cegar facas
Estilhaços
poema musicado por Yuri Prado
arranjo: Yuri Prado
interpretação: Juliana Valverde (voz) e Yuri Prado (violão)
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desespelho da cara
desespelho da cara
Retalho em cassa
poema musicado por Vitor Caffaro
arranjo: Vitor Caffaro
interpretação: Juliana Valverde (voz), Vitor Caffaro (acordeom), Valéria Schwarz (piano) e Vinicius Pereira (baixo acústico)
coro de falas: Juliana, Valéria, Vitor, Vinicius e Yuri
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avarandado
avarandado
eco matuta
poema musicado por Julio Valverde
arranjo: Yuri Prado
interpretação: Juliana Valverde (voz) e Thiago Faria (violoncelo)
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POEMA VISUAL
Alguns poemas do livro estão disponíveis aqui em expressões visuais. Cada artista visual convidado desenvolveu sua expressão motivado por um dos poemas de entre dois ou mais espaços brancos: mais uma janela ao íntimo das sensações.
afasia
afasia
hoje acordei cavalo-marinho
arte visual de Debora Murakami
foto de Lao Machado
respingado de lembranças
respingado de lembranças
Cortinado
arte visual de Enio Squeff
como esquecer um grande amor
como esquecer um grande amor
Benevolência
arte visual de Julio Valverde
letreiros de cegar facas
letreiros de cegar facas
Estilhaços
arte visual de Deborah Dornellas
desespelho da cara
desespelho da cara
Retalho em cassa
arte visual de Israel Kislansky
avarandado
avarandado
cadeira de balanço
arte visual de Clarice Cajueiro
POEMA FALADO
Alguns poemas do livro estão disponíveis em áudio nesta seção: três textos de cada parte de entre dois ou mais espaços brancos, falados por três vozes diferentes, em um espaço dedicado ao sentido de outras intenções.
afasia
afasia
hoje acordei cavalo-marinho
leitura de José Alessandre
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prateleiras que acordam turvas
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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foco
leitura de Cida Almeida
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respingado de lembranças
respingado de lembranças
Anistia
leitura de Cida Almeida
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Ala
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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Como empalhar assentos novos
leitura de José Alessandre
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como esquecer um grande amor
como esquecer um grande amor
IV Decência
leitura de José Alessandre
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XII Sinceridade
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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XIII União
leitura de Cida Almeida
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letreiros de cegar facas
letreiros de cegar facas
Profundamente um só eu
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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Coxia
leitura de José Alessandre
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Notas de um discípulo
leitura de Cida Almeida
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desespelho da cara
desespelho da cara
Retalho em cassa
leitura de Cida Almeida
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Oco ou abarrotado
leitura de José Alessandre
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Autorretrato
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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avarandado
avarandado
cadeira de balanço
leitura de Cida Almeida
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a cabeça e o banco
leitura de José Alessandre
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prólogo
leitura de Juliana de Almeida Valverde
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AUTORA

Juliana de Almeida Valverde nasceu em Salvador, Bahia, e vive em São Paulo desde os 8 anos de idade. Pelo gosto da palavra, sempre buscou formação próxima ao universo da língua e da linguagem: graduou-se em Letras, estudou Canto Popular e especializou-se em Literatura.
Entre dois ou mais espaços brancos é a sua primeira publicação no gênero poesia e foi desenvolvida com o incentivo do ProAC-SP - Editais/2014.

fale com a autora

 juliana.a.valverde@gmail.com

MAKING-OF
Aqui, um pouco do registro do processo de criação e desenvolvimento do projeto, com fotos do acervo pessoal da autora e as sensíveis imagens de Tata Carvalho e Tati Abreu, que acompanharam os dias de gravação dos poemas que viraram canção para entre dois ou mais espaços brancos.
CONTATO
Use o formulário abaixo para enviar sua mensagem para a autora. Os dados serão enviados por e-mail.

X Fechar
hoje acordei cavalo-marinho calmo em alto mar de lençóis meticulosamente bordados por vovó
o quadril flutuante o silêncio das pernas os pés numa cauda só à revelia das águas de algodão
impossível sentir qualquer textura
meu corpo quieto e a cabeça enxuta no emaranhado das linhas de minhas palmas negreiras
o que é de iemanjá assabá oyá o é
impossível respirar passivo o vice-versa do efeito-camomila
impresso pela memória alinhavada de meus antepassados
hoje acordei cavalo-marinho e não pude tirar proveito de boiar em paz
um dos fios dos lençóis espanou
em efeito-de-cadarço-velho-que-já-não-entra-em-buraco-de-calçado-algum
de nada adiantou o metamorfoseado dos tatames murakami
mera vontade de que o ofício-fiadeira não fosse mesmo herança de família
X Fechar

Cortinado

De nada adianta a cortina
pano acessório estúpido
cortado a calar coisas d´alma
A brecha a fresta o buraco
salve e salvem-se os ventos
Iansã que desnuda as estupidezes

*

Ritinha despindo-se calma
A vida em seu curso de janela simples
sem veda
sem trégua
sem disfarçar-se
Ah estúpida cortina

X Fechar

I

Benevolência

Bunda gorda.
Jovelina enxuta de tanto espreitar.
Vinte dias e nada.
Nem peixe.
Nem jangada.
Nem Darcino.

Nem o moço viçoso da vendinha de seu Juvenal.

Vinte e tantos dias
e nada.

X Fechar

 

Estilhaços

Abraço,
estás no desabraço,
em nosso olho com olho,
em teu depois de.
Uma lágrima molhou-lhe a minha falta.
Meu olho seco sem titubear:
há tempos já me havia partido...

X Fechar

 

 

Retalho em cassa Entre a máscara da cara e a quentura do respiro não se tem lá muita coisa Só o que para mim de mim é meu mesmo
O aprisionado da palavra na cabeça que não se deve livrar A minha língua a minha boca a minha cara da máscara ninguém vê Nem deve mesmo existir-se debaixo de tão bela alheia carapaça Entre a máscara da cara e a quentura do respiro só mesmo a vontade de um espelho retroverso a transparecer o que para mim de mim é meu mesmo Entre minha máscara e minha cara só o espaço oco do entre

X Fechar
a boca querendo
sumir-se
o ar a soprar a
falta
à espera do vazio
estanque
o lugar da existência
pura
a fleuma do tempo
limite
entre prender o ar e
sufocar-se
o silêncio mudo e
nada
nada e de novo
nada
no balanço da cadeira
o nada

cadeira
de balanço

 

no balanço da cadeira
atento
de prontidão à captura
de um instante
entre a ida e a vinda
estreita
de sua própria marola
inquieta
tentando em si
caber-se
e tentar fora sempre
nada
horas a fio e
nada
CRÉDITOS
Projeto entre dois ou mais espaços brancos
Este projeto foi desenvolvido com o apoio do Programa de Ação Cultural (Proac) do Governo do Estado de São Paulo.
Poemas de Juliana de Almeida Valverde.
Projeto gráfico de Debora Murakami.
Programação e desenvolvimento do website de Maurício Jerozolimski, pela Majubijê Produções.
Produção executiva e artística de Juliana de Almeida Valverde.
Fotos e clipe de divulgação de Tata Carvalho. Captação de imagens: Tati Abreu.

Poema falado
Interpretação: Cida Almeida, Juliana de Almeida Valverde e José Alessandre.
Gravação e pós-produção dos áudios: Maurício Jerozolimski.

Poema em canção
Produção e direção musical: Yuri Prado.
hoje acordei cavalo-marinho: poema musicado e arranjado por Mário Carvalho. Interpretação: Juliana Valverde (voz) e Mário Carvalho (piano e coro). Emboscada*: poema musicado, arranjado e interpretado por Péri, áudio gravado e finalizado no estúdio Baticum. Rebarba: poema musicado por Ricardo Valverde. Arranjo de Yuri Prado. Interpretação: Juliana Valverde (voz), Ricardo Valverde (vibrafone) e Yuri Prado (violão). Dedicação: poema musicado por Guilherme Valverde (Bareta). Arranjo de Yuri Prado. Interpretação: Juliana Valverde (voz) e Yuri Prado (guitarra). Estilhaços: poema musicado e arranjado por Yuri Prado. Interpretação: Juliana Valverde (voz) e Yuri Prado (violão). retalho em cassa: poema musicado e arranjado por Vitor Caffaro. Interpretação: Juliana Valverde (voz), Vitor Caffaro (acordeom), Valéria Schwarz (piano) e Vinicius Pereira (baixo acústico). Coro de falas: Juliana, Valéria, Vitor, Vinicius e Yuri. eco Matuta: poema musicado por Julio Valverde. Arranjo de Yuri Prado. Interpretação: Juliana Valverde (voz) e Thiago Faria (violoncelo).
**Todos os áudios (exceto Emboscada*) foram gravados por Gustavo e Lindemberg Oliveira, mixados por Lindemberg Oliveira e masterizados e finalizados por Beto Mendonça, no Estúdio 185.

Poema visual
Por Debora Murakami (hoje acordei cavalo-marinho), Enio Squeff (Cortinado), Julio Valverde (Benevolência), Deborah Dornellas (Estilhaços), Israel Kislansky (retalho em cassa) e Clarice Cajueiro (cadeira de balanço).

AGRADECIMENTOS

A minha filha, Bianca, que me faz caminhar e ter vontade dos passos. A Mau, pela cumplicidade de vida e todo o cuidado com o desenvolvimento deste site e pelo apoio à realização de tantos outros projetos. A meu pai, pela insistência ao incentivo da escritura e das verdades de vida. A minha mãe, por todo o amor companheiro de sempre. A Cica, pelo cuidado comigo e com minha Bibi. A Dé, pela delicadeza do projeto gráfico e pela amizade preciosa. A Yuri, pela paciência e todo o carinho na viabilização das canções e pela amizade de irmão de escolha. A Caco, minha amiga-herança-de-pais, pela leitura e entrega. A todos os amigos artistas que me presentearam com tanta empatia em forma de canção (pai, Gui, Cado, Yuri, Péri, Mário e Vitor), arte visual (Dé, Caco, Israel, Enio, pai e Deborah) e palavra (tia Cida e Alex). Aos amigos músicos (Valéria, Vinicius e Thiago), que também brindaram o projeto. A Beto do estúdio 185 e a Lindemberg e Gustavo, que fizeram as canções soarem tão lindo. A Carol do 185. A querida Tata Carvalho, pela amizade e lindo trabalho expresso em fotos e vídeos. A Tati Abreu, pelo cuidado e delicadeza na captação das imagens. A Angélica Arechavala, pelos registros de Israel. A Teta, pelos toques sobre o site. A Debora Palomo, pelo apoio estético (cabelo e maquiagem). A Bia, pelo primeiro registro da melodia de Rebarba. A Valéria, pelo primeiro registro da melodia de Retalho em cassa. A meus sogros, Mimi e Toto, pelo acolhimento de Bibi nas minhas ausências de mãe-escritora e por todo o carinho de sempre. A Lúcia Rosenberg. A meus avós (Mariá e Antonio, Neusa e Adálio), pelo gosto doce da memória de neta. A meus sobrinhos, Davi e Antonio, que da minha cabeceira de escrita estão cá me inspirando. A tio Monclar, pelo amor verdadeiro e provocações reflexivas tão ricas. A toda a minha grande família, evocada aqui por Martônio, Dora, Regi, Cida, Fá. A minha dinda Suzana. Aos professores do curso de Formação de Escritores do ISE-Vera Cruz, pelo cuidado da leitura dos primeiros passos deste projeto, em especial a Jorge Miguel Marinho e a Carlos Pires, pela generosidade da leitura crítica do todo-matriz. Aos meus colegas do mesmo curso, pelo acolhimento literário e fraternal, em especial a Jayme Loureiro e Ricardo Hirata, pelo olhar tão atencioso aos poemas e pela amizade. A André e a Tonha. A Roberto Mendes e a Levy Miranda, mestres de poesia em música. Ao embalo do grupo Pitanga em pé de amora, trilha para muito desta criação. Aos espaços em branco tão cheios de [ ] no caderno nada ausente de Carrascozza. A Lia Farah, Lu Remião, Alê Maria e Deia Manfrin. A Tekinha e toda lembrança do Iredão. A todos que passaram por mim e de algum jeito me fizeram desembocar entre dois ou mais espaços brancos.